Um conto sobre os contos do escritor Jessé Duarte, artista independente de Contagem

Precisava fumar um cigarro. Foi até a praça mais próxima, pois, além da nicotina, necessitava de tranquilidade e de ver alguma coisa que ultrapassasse a linha do óbvio. Caminhou alguns metros e encontrou uma praça onde um dia houve vida. Hoje, ela é apenas um espaço vazio, com cheiro de concreto velho e coberta por folhas, folhas que anunciam a chegada do outono. O local nada mais é do que uma representação de tantos outros lugares espalhados pela cidade de Contagem, como a Estação Bernardo Monteiro e a Casa de Cacos.

Antes mesmo de pegar o maço, um dos produtos mais rentáveis para a captação de impostos, viu um livro abandonado. A princípio, desprezou o objeto, assim como desprezou Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Cabral de Melo Neto. Desprezar a literatura, tanto a clássica quanto a contemporânea, era um talento desde seus tempos de menino. Porém, entre um flerte e outro, tomou em uma de suas mãos o livro “Colorido Só Por Fora: Contos Periféricos”, escrito por um tal Jessé Duarte. Na outra mão, entre os dedos indicador e médio, ostentava o tal cigarro — um veneno para a saúde, mas um afago para a ansiedade!

Foto Blog Jessé Duarte/Reprodução
coloridosoporfora

Pulou a orelha, na qual estava uma apresentação da obra, os agradecimentos, a dedicatória e a introdução. Queria saber, rapidamente, o que estava escrito no livro perdido em plena praça pública, em pleno espaço moribundo… O primeiro conto, intitulado “Abóboras”, despertou sua atenção pelos últimos acontecimentos na sua cidade Natal. Tanta semelhança, tanta realidade em um texto de certo modo ficcional. Ligou o discurso literário ao discurso político. Sentiu, ali naquelas linhas enxutas, um registro do tempo.

Na sequência, o nosso fumante, que mescla a fumaça da nicotina com a das chaminés de uma Cidade Industrial, deparou-se com Ana, uma guerreira vítima da brutalidade das favelas; com um típico casal de periferia brigando por conta da “merda” de tinta fornecida pela prefeitura; com uma travesti lutando para sobreviver e trabalhar; com Joaquim, um moleque que foi obrigado a ajudar a sustentar o lar; com fulano; com beltrano; e com ciclano. As histórias narradas, vez ou outra até com uma vírgula fora do lugar, eram atuais — e o pior de tudo: conhecidas por todos os transeuntes de uma região metropolitana.

Sem ver o tempo passar, cerca de duas, três ou quatro horas depois, finalizou o “Colorido Só Por Fora” e, sim, compreendeu o título, a capa sem cor e a proposta do tal Jessé Duarte: registrar, por meio de um certo realismo fantástico, o que vinha desenrolando há tanto tempo por aí. Políticos e politicagens, descaço e sofrimento, abandono e revolta, preconceito e violência. Tudo está ali, em apenas 47 páginas de uma obra lançada em 2015 de maneira independente e vendida de bar em bar, de casa em casa, de sarau em sarau.

Próximo livro. Jessé Duarte, que transita pela prosa e poesia, pelo teatro e pela militância cultural, acaba de divulgar seu novo livro. “Estórias que Só Existem Quando Contadas” traz contos ambientados em Minas Gerais e que perpassam o Carnaval de Rua, a tragédia em Mariana e a crise ambiental. A obra, assim como o “Colorido Só Por Fora: Contos Periféricos”, pode ser adquirida no Facebook do Autor.


Indicações para o Trem Para Fazer (ler, ouvir, comer): tremparafazer@gmail.com.

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