Do outro lado da linha, um “oi, meu amigo” surge baixinho, quase silencioso. A fala é mansa, e as palavras são ditas de forma primorosa. O entrevistado da vez, o cantor Criolo, gosta de falar, principalmente sobre a grandiosidade da vida.

“Viver faz muito bem. Por mais que doa, viver é a melhor coisa. Não tem problema se alguém perceber suas fraquezas – e quem disse que são fraquezas? Não siga esse modelo de sucesso que alguém vendeu”, crava o músico, animado para cantar, na companhia do público mineiro, as faixas do disco “Espiral de Ilusões”.

O álbum, totalmente mergulhado no samba, emergiu em um momento em que o país precisa muito mais mudar os próximos passos do que dançar conforme a música. “A gente vive uma gangrena social. Eles (políticos) precisam enxergar que o cidadão brasileiro é um ser vivo e que foi ele quem construiu tudo isso”, diz ele, comentando o verso “meninos mimados não podem reger a nação”. “Meu amigo, o nosso povo é tão forte que, apesar de tanto roubo e tanta destruição, continua construindo”, defende.

E essa construção, alimentada pelo dia a dia, ganhará mais um tijolo neste sábado (10), quando Criolo, ao lado de bons e antigos parceiros, subir ao palco do Arraiá Incrível, no Parque Municipal (avenida Afonso Pena, 1.337, Centro), em Belo Horizonte. “Uma coisa maravilhosa vai acontecer em nossas vidas”, finaliza o músico.

Os ingressos para o show custam R$ 60 (meia-entrada). O Arraiá Incrível, que terá ainda Forró Muderno, Lagum, Bloco Volta Belchior,  DJ Yuga e DJ Xeréu, começa às 19h.


ENTREVISTA COMPLETA

Trem Para Fazer: Como tem sido a recepção do disco? 
Criolo: Uma coisa maravilhosa está acontecendo em nossas vidas, uma coisa de muito especial aconteceu em Porto Alegre e no Circo Voador, onde os ingressos ficaram esgotados. Estou contanto as horas para chegar a Minas Gerais.

TPF: O repertório será exclusivamente com as faixas do “Espiral de Ilusões”?
Criolo: Terá sambas do “Nó na Orelha” e do “Convoque Seu Buda”, além de sambas que ainda não gravei em lugar nenhum. Todos da minha autoria.

TPF: O DJ DanDan está nesta turnê?
Criolo: O DanDan vem junto com a discopédia. Ele, o Nyack e o Marco. O DanDan é meu irmão de fé, meu parceiro. Não tem como ficar longe dele.

TPF: Ele é mesmo um cara do bem, né?!
Criolo: Meu amigo, ele tem muita luz, uma energia boa demais. Ele é especial. E não falo isso só por ele ser meu irmão não.

TPF: Como você tem feito a leitura da reverberação deste disco?
Criolo: Eu tô tentando entender. Sinto que não existe limites para a arte, e eu vou te falar: este disco é em homenagem ao samba, representa um período especial para nós todos. Mas, se não fosse o rap na minha vida para falar que a arte não tem limites e que devemos mergulhar, talvez, nada disso tivesse acontecido.

TPF: Sei que você está curtindo este disco, esta turnê, mas já pensa em um próximo disco só de rap? Ou um flerte com outro gênero?
Criolo: Estou pensando em músicas. Se vai ser outro disco, se vou fazer um novo registro, eu não sei. Mas estou vivendo este calor do “Espiral de Ilusões” e me entendendo com ele. A gente está trocando uma maior ideia! (risos)

TPF: Cara, quando você canta “meninos mimados não podem reger a nação, você está falando desse governo que está aí?
Criolo: Totalmente! A gente vive uma gangrena social. Eles (políticos) precisam enxergar que o cidadão brasileiro é um ser vivo e que foi ele quem construiu tudo isso. O nosso povo é jogado lá para baixo, querem destruir sua cultura e sua história. Mas, meu amigo, o nosso povo é tão forte que, apesar de tanto roubo e tanta destruição, continua construindo. Se não fosse isso, o nosso país já tinha explodido.

TPF: Mas você acha que ainda há tempo? Há solução?
Criolo: Lógico que tem solução. O pessoal quer entupir as vias de comunicação de lama e de ódio, enchendo as veredas do conhecimento, para que o nosso povo não tenha acesso. É muito simples: a gente para de roubar, não deixa ninguém mais roubar. Se você for num posto de saúde, vai ver sofrimento, vai ver toda a estrutura deficiente de trabalho. Se o amigo pegar um holerite de um professor, vai entender o que estou falando. 

TPF: E é dessa realidade que o rap bebe muito bem? Da crônica do cotidiano?
Se o amigo pegar alguma seresta, feita por aquele homem do campo, o amigo vai ver que alguns textos foram feitos para hoje. Eles já falavam da alma brasileira, da desvalorização, do crescimento das cidades. Eles já relatavam que o homem do campo é menos valorizado que o homem da cidade. E olha: estão destruindo toda essa oralidade, essa sapiência do homem do campo. Não podemos deixar!

TPF: Quando você canta “pare de correr na esteira e vá correr na rua”, lembro-me do verso “mudar o mundo do sofá da sala e postar no insta”. Essa militância online te deixa aflito? Te incomoda?
Na verdade, o que eu imaginei foi incentivar a viver. Viver faz muito bem. Por mais que doa, viver é a melhor coisa. Não tem problema se alguém perceber suas fraquezas – e quem disse que são fraquezas? Não siga esse modelo de sucesso que alguém vendeu. Permita-se sentir a poluição. Sinta a beleza da poluição que lhe visita.

*Material originalmente apurado para o diário jornal Super Notícia

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