Por Amanda Lira
Especial para o Trem Para Fazer

Roupa preta e black power roxo. Assim estava trajada Elza Soares quando foi revelada, com poucos minutos de atraso, sobre um trono no palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, no dia 28 de julho, à noite. A imagem, emblemática por si só, adquiriu toda sua grandiosidade quando a cantora começou a entoar o carro-chefe de seu álbum, a canção homônima ao espetáculo: “A Mulher do Fim do Mundo”.

O encerramento da canção dava pistas do evento apoteótico com o qual o público se deleitaria no decorrer dos 80 minutos de show. Com um forte semblante e a voz rouca, tal qual na gravação em estúdio, a carioca suplicava que a deixassem cantar: momento arrepiante, vindo de um ícone da música brasileira! Aliás, seu grande legado ficava evidente na diversidade da plateia, que contava com representantes de diversas faixas etárias e casais em suas mais variadas configurações.

Mais do que um espetáculo a ser apreciado, a performance de Elza foi um clamor político e social. No intervalo entre as canções, a artista convocava o público a dar “o grito”, pedido atendido com vigor por todos. “O grito é pra acordar quem está dormindo”, explicou Elza nos bastidores. “O povo brasileiro tem muita força. Ele não pode agora, de maneira nenhuma, perder o entusiasmo e a fé. Nós estamos precisando de muita força, de muita gente”, disse a cantora, que, no palco, proclamava orgulhosa: “Negra! Sou negra! Mulher negra! Minha voz é negra!”, levando a plateia ao êxtase.

Foto Pedro Rocha Franco

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Apesar de abordar questões delicadas, como o racismo e o assédio, Elza não perde o bom humor. Após a canção “Maria de Vila Matilde”, convertida em um hino contra os abusos domésticos, a cantora finalizou: “Em caso de violência, tem que gritar! Não precisa sofrer calada. Gemer, só de prazer”.

Como uma boa anfitriã, a artista deixou para o encerramento um dos momentos mais emocionantes do espetáculo. Enquanto a equipe se reunia reverentemente ao redor de seu trono, a cantora entoava à capela a música “Comigo”, em homenagem à mãe. Ao fundo, luzes amarelas desciam paulatinamente, até atingirem o nível do chão.

Depois de fechadas as cortinas, sem que ninguém arredasse o pé, Elza Soares voltou para dar mais uma palhinha. “Essa mulher do fim do mundo ainda tem muito pra dar”, brincou no retorno. E como tem!

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