Por Amanda Lira
Especial para o Trem Para Fazer

Elza Soares, de 80 anos, passou por Belo Horizonte dando aula. As apresentações da cantora são recheadas de ensinamentos e, claro, encantamentos. E, em uma conversa aberta com o blog TREM PARA FAZER, ela falou sobre a cena mineira e sobre novos projetos, como o novo single que será lançado nesta sexta-feira (4), sua biografia, que ganha vida por Zeca Camargo, e seu musical. Ah, e ainda tem disco novo vindo aí!

(AL) Em maio passado, você esteve na Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte, dividindo o palco com o cantor Marcelo Veronez. Como você vê a nova cena musical mineira?
(ES) É uma primavera, né?! Acompanho a música de Minas Gerais durante toda minha carreira. Vi grandes artistas nascerem, como meu afilhado Vander Lee e meu amigo Tizumba. Dei força a muitos e essa oportunidade de conhecer o Marcelo foi pra encher o coração de alegria e ver que os mineiros continuam com tudo. Guarde este nome. Ele fará barulho por esse nosso Brasil!

(AL) Após sua longa trajetória musical, você acredita ser possível estabelecer paralelos ou contrastes desta nova geração com a antiga MPB mineira?
(ES) Acredito que agora sim! O que ando escutando de Minas tem muito daquele tempo de ouro da MPB de Milton, de Lô, de Flávio. O Pedro Loureiro me mostrou umas coisas lindas. Um vinil da Beatriz Rodarte, umas músicas do Pedro Morais, do Kadu Viana e da Maíra Baldaia. Esta me mandou um disco lindo e de mais um bocado de gente boa. Gosto de escutar meu amigo Tutti Maravilha. Ele toca cada coisa linda dessa nova geração…

(AL) Aos 80 anos, você é uma cantora com reivindicações e conceitos extremamente atuais em defesa da mulher, do negro e do público LGBT. O que essas questões representam para você e qual a importância de evocá-las musicalmente?
(ES) Oitenta? Não tenho idade e não conto os anos da data do meu nascimento faz tempo. Acho uma bobagem, uma perda de tempo! Sou do agora, do now, e, por isso, vivo os problemas deste agora. A mulher apanha calada desde que o mundo é mundo. O negro é tratado como escravo desde antes deste país ser chamado de Brasil. Os gays são excluídos e maltratados há séculos. Muito disso, eu vivi na pele! Hoje tenho a sorte de ser ouvida por muita gente. Tenho a obrigação de denunciar aos quatro cantos essa maldade. Grito mesmo, e comigo grita muita gente. Alguma coisa vai melhorar. Há pouco tempo, a mulher não podia nem votar. Não melhorou alguma coisa?! Falta muito, mas o primeiro passo é denunciar publicamente isso através da minha música.

(AL) Canções como “Maria da Vila Matilde” e “Mulher do Fim do Mundo” se tornaram verdadeiros hinos, sobretudo pelos que se sentem representados por elas. Apesar disso, sua música foi capaz de transcender a questão política e cair no gosto popular, sendo utilizada, por exemplo, como abertura de série da Netflix. Como você enxerga essas diferentes apropriações de suas faixas?
(ES) Acho lindo as músicas tomarem vida própria e chegarem a todo mundo por vários caminhos. São músicas de protesto, sim, mas também são canções melódicas, bem produzidas, com letras gostosas de ouvir. Imagine só uma música forte como a “Maria da Vila Matilde” ganhando o prêmio Multishow de Melhor Canção do Ano. Ali a gente concorre com Anitta, Ivete, Luan e essa turma do popular que tem um espaço enorme na mídia. A música “Mulher do Fim do Mundo” vai ser tema de um comercial de uma grande marca dessas de cosméticos. Já dei o furo (risos). Olha como isso tudo é maravilhoso. Nosso protesto ganhando destaque!

(AL) Apesar de estar em uma excelente fase, você já tem novos projetos em vista. Em entrevista para a revista “Rolling Stones”, por exemplo, você comenta sobre a criação de um novo livro, um espetáculo sobre sua trajetória e a projeção de um disco novo. Você pode falar um pouco sobre esses novos projetos?
(ES) Não posso falar muito ainda, mas falo (risos). Minha biografia sai ainda neste ano pela Leya. Quem está escrevendo é o Zeca Camargo junto com meus empresários Juliano Almeida e Pedro Loureiro. Tá ficando uma coisa linda! O musical é ano que vem pela Sarau, aquela que fez Gonzagão. Desse projeto, ainda não sei falar muito. O disco novo vem aí, olê, olê, olá. Não vou contar mais nada, mas que vem, vem! Assinei contrato com a gravadora Deck. 2018 promete!

(AL) Além disso, está previsto para este mês o lançamento de um single com a cantora Pitty. Em que aspectos você e a cantora convergem? O que podemos esperar da canção? Ela já tem data para ser divulgada?
(ES) Tem. O lançamento é dia 4 de agosto. Gravamos um clipe também, lindo. Vamos lançar no mesmo dia. Pitty é minha cara, e eu sou a cara da Pitty. Esses dias conversamos sobre as coincidências. Minha família é miscigenada, a dela também. Tenho bisneta da cor da Pitty, a Pitty tem tio da minha cor. Tenho música com o colorido da Pitty, a Pitty coloriu uma música só pra mim. Somos mulheres guerreiras. Só por isso já dividimos a mesma luta. A música é pra celebrar isso tudo!

(AL) Você é um ícone da música brasileira e uma das poucas artistas que conseguiu prolongar, com tanta maestria, sua carreira. Como você avalia sua própria trajetória?
(ES) Não foi fácil! Tive que me reerguer tantas vezes que isso nem me assusta mais. Um artista não faz nada sozinho. Nem a dor, nem a delícia. Já tive muita gente boa trabalhando comigo, que me ajudou a construir minha carreira, mas também já encarei muito pilantra pelo caminho. Peitei todos. Se hoje for falar em prolongar carreira com qualidade de verdade, eu falo em dois nomes: Juliano Almeida e Pedro Loureiro. Esses caras dão a vida pelo trabalho. Eles cuidam da minha carreira com uma vontade e uma criatividade que chega a me emocionar. Eles me ajudaram a me reinventar.

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