Fotos Tiago Calazans

A procura pela discografia do Cordel do Fogo Encantado nas plataformas de streaming, como Deezer e Spotfy, foi uma das molas propulsoras que catapultaram o grupo da cidade de Arcoverde, localizada a cerca de 250 quilômetros de Pernambuco (RE), de volta a cena musical brasileira — não que o quinteto estivesse calado, mas, há exatos 8 anos, a banda havia apertado o botão de stop. José Paes de Lira, o Lirinha, entrega que o encontro entre os integrantes da banda se deu quando foram organizar a história, as músicas, o trabalho desenvolvido entre 1999 e 2010.

“Esse foi o momento que, levados a mergulhar na nossa própria história, decidimos lançar luz nos discos físicos, que já estavam fora de catálogo, e pensamos que, se íamos organizar os canais nas redes sociais e anunciar o retorno da banda, deveríamos mostrar uma nova mensagem e apresentar músicas inéditas”, conta o vocalista, destacando ainda a ressignificação de um adeus doloroso:

— Durante esse processo, teve o falecimento de Naná Vasconcelos, produtor do nosso primeiro disco e uma pessoa que, durante um ano e meio, dois anos, viajou conosco para fazer shows, o que criou um laço afetivo muito grande. Éramos muito amigos! Ele era um defensor da formação do Cordel do Fogo Encantado, pois dizia que a banda colocava a percussão como protagonista. E no velório dele, em março de 2016, houve o encontro dos integrantes do Cordel. A gente se olhava e falávamos: ‘Vamos fazer um show, um show para Naná’.

“Existe um sol que só é feito com essa formação.” (Lira)

A partir daí, Lirinha, Clayton Barros, Emerson Calado, Nego Henrique e Rafael Almeida, fizeram as malas e embarcaram na “Viagem ao Coração do Sol”, como diz o título do novo disco do grupo, lançado em abril passado. Pelo caminho, eles encontraram um “mundo modificado pelas redes sociais e algumas questões sendo debatidas, sendo que muitas delas viviam no subterrâneos e outras já haviam aparecido na nossa história musical, como a intolerância religiosa”, salienta o vocalista e poeta.

— Nesse processo, um dos pontos que me instigou e me deixou curioso é que a banda surgiu em 99, em plena crise das gravadoras, e, por isso, não tinha contrato com nenhuma delas: seguimos independentes e sem internet, pois ela existia, mas não de uma maneira popular. Lembro que em Arcoverde, até o ano em que paramos, 2010, havia internet em poucas casas. Nessa época, a gente tinha apenas umas duas comunidades na rede social Orkut.

“Me preparei muito para este momento.” (Lira)

Com ou sem conexão banda-larga, discada ou seja lá o que for, o Cordel, como gostava de dizer o amigo Naná Vasconcelos, apresentava em cena — agora, conforme tem sido visto, voltou a apresentar — um ato político. Há neste novo trabalho, por exemplo, tons da cultura africana assim como da indígena.  Além, claro, da misticidade.

— Trabalhamos com um forte mergulho nas músicas de feitiçaria, nas de encantamentos. Tanto que trouxemos para o título da banda a mitologia dos povos Xucurus: a árvore dos encantados, que migra os nossos antepassados quando saem da terra. Essa tribo é importantíssima para o Cordel.

CFE por Tiago Calazans 03

DEBATE
Perpassando faixa por faixa do disco “Viagem ao Coração do Sol”, é perceptível o discurso em torno da liberdade. Valor que, logo no prelúdio do álbum, fica evidente por meio dos versos: “O sonho acabou e só assim saímos do fundo da terra em direção ao sol; o mundo agora é esse, precisamos falar com a filha do vento: a que chamam liberdade”.

— Este é um dos temas mais interessantes na nossa existência. Temos que entender a liberdade não só pelo desejo, mas compreendê-la nas nossas ações, na liberdade individual e no que fazemos com a liberdade em uma sociedade em que vivemos juntos e não isolados. E, se somos livres, porque vivemos acorrentados por todos os lados?

O questionamento de Lirinha, que conversou com o blog Trem Para Fazer por telefone, suscita a reflexão acerca das próprias redes sociais, plataforma que, se por um lado doutrina pensamentos e relações, por outro  possibilitou o reencontro do Cordel.

“Ser livre, é querer o outro livre” (Lira)

Lirinha_CFE por Tiago Calazans 05SHOWS
Entre a organização da discografia nas plataformas online, a despedida de Naná e a manchete “Cordel do Fogo Encantado Anuncia Volta aos Palcos”, o tempo passou. Foram quase 500 dias imersos no processo de musicalização, composição, gravação, preparação, ensaios… até que, logo após o carnaval, os admiradores da sonoridade construída desde o disco homônimo lançado em 2001 puderam vibrar com a notícia.

 — Mesmo após a decisão de fazer um novo trabalho, o retorno aos palcos era a última definição. Esse foi o motivo da nossa escolha pelo sigilo total da volta do Cordel do Fogo Encantado. Assim, nada tirou o nosso foco da construção musical.

O resultado dessa “Viagem ao Coração do Sol”, como diz o título do novo trabalho dos pernambucanos, poderá ser conferido no próximo sábado, dia 19, a partir das 22h, no Music Hall (avenida do Contorno, 3.239, Santa Efigênia), em Belo Horizonte. No show, além de perpassar todas as canções inéditas, Lira adianta que visitará antigos versos, como os do poema “Ai Se Sesse”, do mestre Zé da Luz.

— A gente tinha essa história nova para contar, mas também o desafio de reencontrar o público, que está com saudade da banda. Não daria para não mostrar neste show canções que marcaram a nossa trajetória. Foi desafiador, mas foi ótimo, pois conseguimos ressignificar várias das nossas músicas, trazendo-as para dentro da nova narrativa. Todos os discos do Cordel do Fogo Encantado ajudam a contar o espetáculo.

E neste espetáculo, conforme confirmado por Lirinha, que havia deixado o grupo há oito anos para dedicar-se aos trabalhos solos, haverá muita luz, trabalho cenográfico e, claro, toda a teatralização que fizeram a banda despontar no início dos anos 2000 e caminharem, agora, rumo ao encontro do coração da estrela central do sistema.

“Foi desafiador, mas foi ótimo.” (Lira)

CFE por Tiago Calazans 06.jpg

LEMBRANÇAS
Impossível bater papo com José Paes de Lira e não comentar as inúmeras apresentações dele, tanto com o Cordel do Fogo Encantado quanto com os trabalhos solos, na Terra das Alterosas. Em 2006, por exemplo, o vocalista, ao lado dos companheiros de banda, apresentou na Praça da Estação, na região central da capital mineira, faixas dos discos “Cordel do Fogo Encantado” (2001), “O Palhaço do Circo Sem Futuro” (2002) e “Transfiguração” (2006) para uma multidão. Dois anos depois, ele levou para o palco do Teatro Alterosa, no bairro Floresta, o monólogo “Mercadorias do Futuro”. Essas são duas, segundo o próprio poeta, das muitas vezes que encontrou os mineiros.

— BH faz parte da nossa história. Levamos para a capital mineira todos os nossos espetáculos, inclusive os intermediários. Tenho fortes lembranças do Lapa Multishow, dessa apresentação citada por você na Praça da Estação, de um show dentro de uma estação de metrô e por aí vai…

“Belo Horizonte é um lugar que participa do
nosso sonho de retorno.” (Lira) 

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